Portal de Conferências da UnB, XVII Encontro da Rede de Estudos Ambientais dos Países de Língua Portuguesa

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BIOATLAS: uma ferramenta de apoio à decisão sobre os recursos biomássicos e a sua cadeia de valorização energética
Myriam Nunes Lopes, Sandra Moreira Rafael, Luís Tarelho, Luís Arroja, Ana Dias, Hélder Relvas, Ana Miranda

Última alteração: 2015-06-26

Resumo


Keywords: Biomassa Florestal, Energia, Desenvolvimento Sustentável

Resumo

Face à dependência energética externa da Europa, e no sentido de diminuir a emissão de gases com efeito de estufa (GEE), a União Europeia (UE), bem como os Estados Membros, têm trabalhado no sentido de se tornarem energeticamente mais eficientes e ambientalmente mais eficazes. Com a nova Estratégia Nacional para a Energia, apresentada no início de 2010, o eixo das Energias Renováveis refere o cumprimento dos compromissos assumidos por Portugal no contexto das políticas europeias de combate as alterações climáticas, permitindo que em 2020 60% da eletricidade produzida tenha origem em fontes renováveis. Este plano reitera o valor anteriormente apontado para a Biomassa, dando prioridade à instalação efetiva da potência já atribuída (250 MW de potência instalada), integrando mecanismos de flexibilidade na concretização dos projetos, assim como na aprovação de medidas de promoção da produção da biomassa florestal, assegurando a satisfação das necessidades de consumo nas centrais já instadas e a instalar (Rafael et al., 2015).

A floresta é uma fonte de riqueza no que diz respeito aos serviços ambientais prestados, destacando-se, para além da protecção dos solos e da conservação dos recursos hídricos, o sequestro de carbono, a protecção da paisagem e biodiversidade, e o recreio. O aproveitamento da biomassa florestal para fins energéticos é considerado uma medida fundamental do ponto de vista dos benefícios ambientais esperados, em particular na redução das emissões de GEE, devido às suas múltiplas aplicações: produção de electricidade, de calor e nos transportes. Um outro aspeto prende-se com o desenvolvimento rural, criação de emprego e economia local/regional, como resultado da aposta nos recursos endógenos como forma de criação de riqueza, cumprindo-se os três grandes objetivos da sustentabilidade: coesão social, desenvolvimento económico e proteção do ambiente (Rafael et al., 2015).

No entanto, alguns estudos sugerem que o aumento da utilização de energia produzida a partir da biomassa florestal irá provocar alterações do uso do solo e de emissões de outros poluentes para a atmosfera para além dos GEE, como resultado das actividades e operações que constituem a Cadeia de Valorização Energética de Biomassa (CVEB). Foi neste contexto que foi desenvolvido o projecto BIOGAIR, que avaliou os impactes da CVEB na qualidade do ar e nas alterações climáticas em Portugal. Para tal foi definida uma metodologia específica que compreendeu três etapas: i) caracterização da CVEB; ii) desenvolvimento de cenários; e iii) avaliação da qualidade do ar. O BIOGAIR revelou que os processos de produção e colheita; transporte e conversão energética contribuem para a degradação da qualidade do ar (Rafael et al., in press). Por outro lado, o projecto revelou a necessidade da integração da valorização da biomassa no quadro das políticas para o setor florestal, através da concretização territorial dos instrumentos de planeamento florestal, designadamente dos Planos Regionais de Ordenamento Florestal e dos Planos de Gestão Florestal, permitindo a aplicação regional das diretrizes estratégicas nacionais e a monitorização da gestão florestal sustentável, bem como a articulação com outras políticas ambientais que garantam os diferentes serviços prestados pelos ecossistemas florestais (Lopes et al., 2013).

Face aos resultados do projeto BIOGAIR, o passo seguinte passou pela disseminação do conhecimento científco, garantido que este contribui para o desenvolvimento de uma estratégia económica sustentável associada ao setor da biomassa. Como resultado, procedeu-se ao desenvolvimento do BIOATLAS, uma plataforma digital, de apoio à decisão, de fácil acesso e manipulação, que alia de forma inovadora a tecnologia de informação geográfica à investigação científica que vem sendo realizada no domínio da biomassa florestal.

O BIOATLAS foi desenvolvido em três fases principais: i) Recolha e Formatação de Dados; ii) Desenvolvimento e Teste do Sistema de Informação Geográfica e iii) Integração do conhecimento científico no plataforma BIOATLAS. A primeira tarefa compreendeu a recolha e tratamento de dados, bem como o desenvolvimento de algoritmos de cálculo, nomeadamente no que diz respeito: 1. Recursos florestais (inventário nacional); 2. Recursos agrícolas (cadastro nacional); 3. Resíduos animais e aterros (cruzamento de dados do INE com inquéritos às instalações); 4. Redes viárias (dados fornecidos pela ESRI, compatíveis com sistema ARCGIS); 5. Instalações de armazenamento, processamento e fabrico, existentes em território nacional e respetivas capacidades; 6. Indicadores da procura de energia térmica (horas de desconforto térmico, densidades populacionais, localizações de edifícios públicos, hospitais, piscinas, etc.); e 7.Outros dados nacionais não georreferenciados (produtividades das espécies florestais e agrícolas, factores de conversão, factores de emissão, tabelas de afetação, preços de combustíveis, etc.).

A segunda fase consistiu no  desenvolvimento do instrumento de informação geográfica integrado para a biomassa – o BIOATLAS - que foi baseado na tecnologia "ARCGIS" tendo como objetivo a simplicidade no uso, garantido através de uma interface simples e intuitiva. Pretendeu-se deste modo maximizar o número e tipos de utilizadores que dela poderão tirar partido, assim como divulgar e promover com a máxima eficiência as oportunidades e intervenientes no subsector da biomassa, promovendo a sua exploração e interação, respetivamente. A última fase do projeto consistiu na integração no BIOATLAS de resultados relevantes da investigação científica no âmbito da biomassa energética. Durante esta fase os algoritmos desenvolvidos relacionados com simulação dos custos de produção, exploração, logística e emissões de carbono ao longo da primeira fase das cadeias de produção da biomassa florestal foram aplicados através do BIOATLAS à totalidade da cadeia e extrapolado para todas as possibilidades de cadeias de produção originadas pelo mesmo instrumento. Foram ainda replicadas estas metodologias para as restantes fileiras de biomassa, tornando possível a simulação destes indicadores de custo de produção e emissões para a quase totalidade das possibilidades de usos energéticos da biomassa portuguesa (presente e futura).

Deste modo, o BIOATLAS permite estimar diferentes cenários de valorização dos recursos energéticos da biomassa em diferentes regiões do território nacional, possibilitando a aferição do potencial de produção de produtos energéticos transacionáveis associados à biomassa sólida, liquida e gasosa. É esperado que o BIOATLAS se assuma como um instrumento coletivo ao serviço da melhoria da competitividade dos agentes intervenientes no subsetor da biomassa, particularmente das empresas, num país que identificou esta fileira como uma das prioridades estratégicas no quadro das políticas energéticas a implementar nos próximos anos, em razão dos benefícios económicos, sociais e ambientais que aporta, mas cujo potencial não está a ser devidamente explorado/aproveitado.

 

Referências

Rafael S., Tarelho L., Monteiro A, Monteiro T., Gonçalves C., Freitas S., Lopes M. (in press) Atmospheric Emissions from Forest Biomass Residues to Energy Supply Chain: a case study in Portugal . Environmental Engineering Science.

Rafael S., Tarelho L., Monteiro A., Sa E., Miranda A.I., Borrego C., Lopes M. (2015) Impact of forest biomass residues to the energy supply chain on regional air quality. Science Of The Total Environment. 505, 640-648.Link: http://dx.doi.org/10.1016/j.scitotenv.2014.10.049

Lopes, M., Tarelho, L., Ribeiro, I. Monteiro, A., Martins, H., Rafael, S., Miranda, A.I., Borrego, C. (2013) Lopes, M., Tarelho, L., Ribeiro, I. Monteiro, A., Martins, H., Rafael, S., Miranda, A.I., Borrego, C.. (EDS.), Impacts of Biomass to Energy Chain on Air Quality and Portuguese Climate Policy. Aveiro. University of Aveiro. 978-989-98673-2-1.